ad ER Rev As

A le ras

LAUDELINAS

VOLUME 1. NÚMERO 8.20214 ISSN 2675-6803 SELO EDITORIAL MIRADA RECIFE - PERNAMBUCO

ELE E te CAPA

Taciana Oliveira Fotografia de Michelle Guimarães no Pexels

CONSELHO CEDITORTAE

Argentina Castro

Liliana Ripardo POTOGRAR LAS

mariam pessah (p.48, p.56) Paula Anias (p. 62, p.66)

DESIGNER EDITORIAL Yvonne Miller (p.93) Rebeca Gadelha ty ILUSTRAÇÕES

Ana Amorim Fontana (p.16, p.40, p.58, p.85, p.99)

Regina Carvalho (p. 68, p./70, p. 72)

Sablina Cavalcante (p./6)

Taciana Oliveira

APRESENTAÇÃO

Taciana Oliveira

Laudelinas Edição Especial | 2022 comemora dois anos de existência em meio às incertezas de uma guerra. Nossa publicação nasceu da contribuição das diversas vozes femininas e resiste bravamente a tempos de uma insanidade tóxica e recalca- da. Nossa pauta é o verso, a poética gentil, a realidade que pulsa em nossos corpos. Aqui estamos mais uma vez desenhando nossas histórias. A urgência que nos move é o respeito:

No telejornal Vladimir, Joe e Jair alegam inocência Sua Santidade

alega inocência

O jogador de futebol o estuprador

o ginecologista

O Juiz

o pastor

o policial

o jornalista

o ministro

o plano de saúde

e o deputado fascista:

todos alegam inocência

Lisa é antivacina Bia, negacionista

Regina: demente

Mas Elza, que nasceu no planeta fome responde: “eu vou cantar até o fim”

Alguém duvida?

Recife, 08 de março de 2022

A AGONIA DE SELOMITE

Adriane Garcia

RETORNANDO PARA O ÉDEN

Andréa Agnus Bruna Sonast

ESPALHADA PELO CONTINENTE Carlandréia Ribeiro

DESCOMPRESSÃO Cinthia Kriemler

Eva Potiguara

ANTESSALA Flávia Péret

MEIO-SÉCULO

O LUTO É MEU VERBO Germana Accioly

SÉQUITO Iaranda Barbosa

09

11

14

16

20

Piz

25

27 29

31

ÍNDICE

SUGESTÃO DE LEITURA: ESPAÇOS, MEMÓRIAS E LUTAS EM A MULHER DOS PÉS DESCALÇOS, SCHOLASTIQUE MUKASONGA

Iaranda Barbosa

SUAS AMIGAS Laura Cohen Ribeiro

CAVIDADES AUDITIVAS

PROJETOS DE UM ASPIRANTE QUE PENSAVA SER LENDA Lorraine Ramos

BAJO LA LUNA Maria Alice Bragança

FEMINISMOS mariam pessah

A DANÇARINA Marisa Teixeira

ESPELHOS Marta Viana

34

38

41

43

46

49

5)

2/

MAIS UMA Naiana Íris

BEIUJU DE COCO É TRADIÇÃO NA CIDADE ONDE EU NASCI

REZA DE BIA Paula Anias

“SUCEDE QUE ME CANSO DE SER HOMBRE?”

DO AMOR AO TEMPO

“O QUE VI NA ÁGUA E O QUE EU ÁGUA ME DEU”

Regina Carvalho

Sablina Cavalcante

59

63 65

69 71

79

73

E AGORA (CIS)TEMA?

O DIA EM QUE CONHECI PAGÚ Thara Wells

Val Prochnow

ATO POÉTICO Yonne Miller

MARCO ZERO Zélia Sales

PARTICIPARAM DESTA EDIÇÃO Iaranda Barbosa

79

80

91

94

96

100

A AGONTA DE SELOMITES

Adriane Carcia

Antes medo a noite de insônia

mães, como Selomite, que Inconscientemente vão danificando os rins

Enquanto o filho não volta para casa

Começa com uma sensação na boca do estômago Lágrimas antecipadas querendo vir aos olhos

passa quando o filho adentra a porta Durante susto o coração na boca

Hoje, o filho de Selomite não adentrou a porta As notícias chegaram, disseram, houve briga

E meninos como o-de Selomite nasceram culpados

Talvez seja por isso que ele tenha blasfemado contra deus Talvez nascer culpado seja uma atenuante próxima da inocência

E bem provável, Selomite implora compaixão onde não existe

1 poema do livro A bandeja de Salomé, edição bilíngue com tradução de Manuel Barrós para o espanhol, editora Caos & Letras. No prelo.

Depois tristeza abraçar um corpo

O crime, dizem, foi contra deus O juiz Moisés é também o advogado do suposto atingido

O suposto atingido deus legisla em causa própria

Uma mãe assiste ao apedrejamento do filho No mundo que se regozija e se perpetua com apedrejamentos

A tristeza é um sentimento que danifica os pulmões.

Adriane Garcia, poeta, nascida e residente em Belo Horizonte. Publicou Fábulas para adulto perder o sono (Prêmio Paraná de Literatura 2013, ed. Biblioteca do Paraná), O nome do mundo (ed. Armazém da Cultura, 2014), Só, com peixes (ed. Confraria do Vento, 2015), Embrulhado para viagem (col. Leve um Livro, 2016), Gar- rafas ao mar (ed. Penalux, 2018), Arraial do Curral del Rei a des- memória dos bois (ed. Conceito Editorial, 2019), Eva-proto-poeta, ed. Caos & Letras, 2020 e Estive no fim do mundo e lembrei de você (Editora Peirópolis).

RETORNANDO DARA O ÉDEN

Andréa Agnus

“O que você quer de mim?!”

“Mirela, você não tem responsabilidade por nada do que eu sinto. Não precisa ficar assim. Não é sua culpa”

Silvia tentava acalmar aquela mulher de mãos inquietas e olhar obtuso, como se ela implodisse um velho mundo dentro de si. Assim como tudo na natureza que se desfaz para dar espaço a algo novo.

Na primeira vez que ficou face a face com aquela artista, agradeceu à coincidência do anúncio e mais ainda à sua curiosidade: Uma pintora de móveis e paredes... uma mulher... interessante. Olhou suas portas e janelas de madeira clamando por um repa- ro, ao menos uma mão de resina elas mereciam, e a cada foto curtida de dezenas de estilos de pinturas feitas à mão, a vontade de contratar Mirela veio de imediato.

Aproveitou as férias do trabalho para acompanhar a obra. Conversas trocadas em meio a xícaras de café e sorrisos soltos. Como duas almas que se afinam pelo simples fato da outra existir na mesma vida. A cada cômodo terminado; pinceladas pausadas e confissões do passado; crescia, entre as duas, uma cumplicidade que as unia. Mas, a chegada do esposo da pintora para buscá-la, lembrava o fim da diária.

Silvia percebia que o azul dos batentes das portas e janelas iam se contrastando cada vez mais com as cores quentes que a artista escolhia, como aquele painel verde, agora acrescido das folhas de outono feitas à mão. Quando se deu conta, a pequena casa de quatro cômodos estava sendo tomada pelo talento da nova amiga, assim como seu coração.

Sua solidão gritava alto, evidenciada pelo miado de seu gato na sala de móveis afastados. Faltava apenas seu quarto para acabar seus dias de alegria. Ela passou a amar O cheiro de tinta, as lonas espalhadas no chão e o sorriso de Mirela.

“Vamos abrir as últimas latas! Meu esposo está perguntando que casa grande é

essa.” Gargalhadas vieram das duas. “Diga que você trabalha na diária e isso é bom para os dois.”

“Se você não me parasse pra escutar seus textos, escritora, teria terminado na semana passada.”

“Mas, é você que começou com essa história. Isso não estava em nosso contrato!” “Que contrato!? esqueci!”

Tantas cláusulas haviam mudado. Assim como aquele sentimento que era novida- de no coração de Mirela e renascido no de Silvia que anos não se apaixonava.

Uma escada mal apoiada. Bastou isso para uma cair nos braços da outra. Um olhar. Um silêncio que tardava, originário de palavras de amor não ditas. Gravuras foram ganhando vida. Bem-te-vis voavam da cozinha. Beija-flores do corredor. A brisa do outono misturava-se com o perfume da primavera. Mirela havia pintado uma espécie de jardim secreto. Mas, a tinta estava fresca demais para se derramar naquela amizade colorida. Veio a culpa após o beijo. O primeiro beijo.

“Você entendeu tudo errado. Eu não posso fazer isso.” Silvia a encarava, sem in- terromper a chuva de justificativas que se derramavam de Mirela. “Isso nunca passou pela minha cabeça. Eu não sou como você!”

“Nada disso é sobre o que você é, mas sobre o que você sente. O que nós senti- mos!”

A dona da casa tomou as mãos da artista e as beijou. Seu abraço veio quente, trazendo nele uma nova estação. Nada melhor do que um peito apoiado a outro, para dizimar dúvidas. Os outros beijos vieram livres como os lençóis da cama que se des- fizeram. exausta de tanto prazer, Mirela concluiu:

“Calculo que termino os móveis em uma semana” “Mas, eles não estão no orçamento.”

“Vai ser cortesia da casa!”

Andréa Agnus é uma cearense que, ao se assumir escritora, escan- carou de vez as portas de seu armário literário. Agora, se reconhece como uma ativista do protagonismo feminino na literatura. Publi- cou, de modo independente, as obras Quando as Rosas se Amam: Antologia de versos íntimos (2021) e Contos da Terra da Lagosta (2021), ambas no formato e-book, pela Amazon. Alétheia - A verda- de entre abismos e girassóis é seu primeiro romance.

13

Eruna tonast

A boneca me engole com seus olhos fixos de vaguidaão. Desnuda, enfim, engulo a boneca, de uma vez só.

A boneca disforme, com seu corpo incorporal, me engole de cara. Em deboche de boca escancarada, de pernas abertas, de quem sabe o segredo da vida.

E eu choro, boneca, e me vitimizo, perante teus olhos opacos.

É que me falta a coragem, me falta a vontade, me falta o gozo. Falta a mim, que faltei sem deixar bilhete de despedida.

Eu choro, criatura, perante teus olhos transparentes, que me olham com esta ternura fingida, que tanto me comove.

Engulo, de leve, a boneca, caco por caco, que me estilhaçam, e me fazem, enfim, des nu da.

A boneca, desolada, me engole com seus olhos lacrimejados de pranto que nunca der- ramou. Como quem entende, como quem sente, como quem não condena.

A boneca vadia me mastiga com a boca que não tem.

E ama com tal intensidade, com tal vontade, com tal torpor. A boneca menina me nina, em doçura e gentileza..

E é que eu faltei, boneca, mas também faltou a despedida.

Não me foi revelado o segredo, não me foram reveladas as palavras.

Boneca, me engole!

Bruna Sonast é escritora independente. Vive na e pela poesia dos dias, seguindo os (des)caminhos do sul, do aqui-agora. Publicou vestígios, por via independente, em 2020, com nova impressão em 2021. Organizou e participou com poema em baRRósas: memória e poesia (Selo Mirada), em 2021. Organizou a coletânea Escritas do fim do mundo, em 2022. Tem graduação em Letras e mestrado em Linguística Aplicada, pela Universidade Estadual do Ceará. In- tegra a coletiva de mulheres “baRRósas”.

Adjoa 1

ESPALHADA PELO CONTINENTE:

Carlandréia Dibeiro

De um amor espalhado pelo continente quase morreu uma mulher.

Ela ousou percorrer o doce e temível destino de ser água.

Enquanto escorria pelas frestas do caminho não percebeu o desvio que a levava ao precipício.

Em vertiginosa queda seu Corpo-líquido bailou em torno daquele Corpo-prazer. Per- deu-se no sumidouro dos seus braços.

Qual foi o demônio que o enviou? Ela se perguntava. Se não foi o demônio, por que diabos Deus havia de lhe fazer essa pilhera?

Por que aquele Corpo-prazer aparecer assim, sem ser chamado? Sem que ela estivesse preparada para receber o impacto do mergulho?

O negrume daquele Corpo-prazer, a fartura dos lábios, o olhar que dançava duvidoso entre a esperteza e a dor, a doçura amarga que se podia notar naquela voz rouca quan- do ele sussurrava nos seus ouvidos.

Uma voz mimada de quem nunca se contentava, de quem sempre queria mais, de

1 | Em Experimentos de Escrita e Deságue para não enlouquecer na pandemia 2021

quem nunca saciava.

A mulher perdeu-se do seu leito, se afogou em sua própria fluidez, se encharcou da- quele Corpo-prazer com tanta sede e tão violentamente que desmanchou no chão, feito poça, esvaiu sugada por toda a terra que havia no continente.

Ele, que não era de nenhuma qualidade de ser líquido, desapareceu.

Desfez-se de toda a sua solidez de Corpo-prazer, sumiu como um meteoro que se de- sintegra no espaço.

Retornou ao de onde um dia Deus ou o diabo o deixaram escapar.

Ele nunca mais se refez diante dela.

Ela agora recomeça.

De hoje em diante, até quando ela ainda não sabe quando, ela vai se dedicar á tarefa de recolher cada mínima gota dessa água de si mesma que se espalhou pelo continente enquanto ela banhava o Corpo-prazer.

Cada gota vem prenhe de lembranças...

O negrume do corpo, a fartura dos lábios, os olhos espertos e tristes, a voz rouca doce e amarga - faminta.

Ela recolhe e guarda tudo num lugar escondido dentro da abissal fundura da sua alma. essas memórias ficarão eternas.

Ela está disposta a refazer-se em Corpo-líquido.

Quer ser novamente rio, outra vez jorrar seu gozo, outra vez Corpos-prazer, uma vez mais correr para o mar e morrer de amor espalhada pelo continente.

Nunca fugir do destino de ser água.

Carlandréia Ribeiro é atriz, arte-educadora e produtor. Formada em Arte educação pelo MEC, Instituto Pró-Memória e Secretaria Estadual de Educação, atriz, produtora, cantora, coordenadora do FAN - Festival de Arte Negra de Belo Horizonte. Atuou como coordenadora e arte-educadora na Implantação do Programa de Relacionamento com a Comunidade da Cia Mineira de Metais em Três Marias/MG. Desde 1982, tendo a arte como ferramenta contra o racismo e as desigualdades sociais, tenho participado de importantes momentos dessa luta como a Marcha Zumbi dos ' Palmares- Brasília 2005, que comemorou os 300 Anos da Imor- talidade de Zumbi. As ruas, os palcos e as escolas sempre foram os espaços privilegiados para colocar essas questões. Atualmente desenvolve ações voltadas para a formação de jovens, adultos e educadores nas áreas de arte e cultura, especialmente na im- plementação das Leis 10.639/2003 e 11.645/2008 que tornaram obrigatório o Ensino de História e Cultura Africana, Afro-bra- sileira e Indígena nas escolas de educação básica, bem como o Parecer do CNE/CP 03/2004, que aprovou as Diretrizes Curri- culares Nacionais para Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana.

BESCOMPRESSAÃO

CINTIA KPIEMLED

Não nuanças A parede cinza ultrapassa a silhueta

da mulher em paisagem monocromática. São, ambas (mulher e parede), mescla de asfixia e morte

O para onde ir é retórica de inércia.

No umbral desbotado, o retrato apático da fêmea sem pulsões sofre a moldura de uma grade inútil.

Asfixia e morte. Seria apenas isso.

Não fosse a delicadeza de uma cortina branca

que avisa de um pudor que avisa de uma sístole que avisa de uma vida Ainda em teimosia de ser.

Não fossem as flores que vingam nos vasos de cerâmica.

Cinthia Kriemler é romancista, contista e poeta. Publicou, pela Editora Patuá: Exercício de leitura de mulheres loucas (Poesia, 2018); Todos os abismos convidam para um mergulho (Romance, 2017), finalista do Prêmio São Paulo de Literatura de 2018; Na es- curidão não existe cor-de-rosa (Conto, 2015), semifinalista do Prê- mio Oceanos 2016; Sob os escombros (Contos, 2014) e Do todo que me cerca (Crônicas, 2012). Carioca, mora em Brasília.

21

22

Eva Dotisuara

Não sou apenas mulher... Sou cacos retorcidos, Que rasgaram a vergonha, De choros recolhidos, Em noites sem luar! Venho sem medo,

Com as minhas feras, Com as raízes imersas, De novas primaveras, Trago meus vulcões, Ecos dos gritos,

Do sangue que me gerou! Sou fogo de brasas vivas, Por liberdade que destila,

Sem medo do opressor!

NEGRA...

Irmã de sonhos, desejos e lágrimas... Rainha de seu destino e de suas conquistas. Mulher rendeira de sua alma valente voraz... Não tema os ecos patriarcais,

Não relute em manter a chama de tua voz.

Tece teus dias e noites,

deita tuas sementes em teu ventre de luz

E deixa florescer os teus girassóis...

Tua primavera canta em teu ouvido, Ela chama para te vestir de todas as cores, Te convida a pintar o teu arco-íris de esperança

e coragem...

Então, vem, eu me pintei para te abraçar, Para te receber com as nossas irmãs de todas

as nossas vidas...

Terra Mãe,

Protegida por Jacy e Guaracy, Casa dos meus ancestrais... Oh Montanhas irmãs,

Oh Mares irmãos,

Oh Árvores anciãs,

Fauna xamás,

Deuses dos povos tradicionais... Nos cortaram os galhos,

Nos roubaram sonhos, Enterraram nossos pais,

Mas nosso fruto vingou! Renascemos sementes, Desse chão Pindorama. Força nenhum mate,

Nossa Raiz escarlate!

23

Te jogaram no lixo, mesmo tu sendo flor. Negaram o teu talento de criar beleza, De ofertar poesias em vida e labor.

Mas, a Arte de viver não te abandonou E da lata do lixo te resgatou,

Te trouxe ao teu lugar existencial:

Ao solo dos corações ardentes,

Aqueles que não tem luz artificial... Então, as tuas lágrimas são de alegria, Rega as tuas raízes, pois tu existes para

Seres perfume e semente de poesia!

Eva Potiguara, ativista das causas indígenas e ambientais, Poe- ta, escritora, produtora cultural da EP Produções, Professora de Artes, Doutora em Educação pela UFRN. Membro da União Brasileira de Escritores Seccional Rio G. do Norte. UBE/RN. Membro da Sociedade dos Poetas Vivos e Afins do RN- SPVA. Membro do Núcleo Letras e Artes de Lisboa -NALAP. Tem pu-

blicações solos na poesia, contos, crônicas e infantojuvenil.

SERES OA

Flávia Déret

1.

Minha tia se chama Janete. Quando me divorciei, fui morar com ela. Meu sa- lário como recepcionista numa clínica médica era baixo. Tia Janete sempre me dizia: você precisa arrumar outro marido. Você precisa se casar de novo. Toda mulher preci- sa ter uma família, filhos! Um sábado cheguei do plantão e, antes de ir para a cozinha esquentar meu jantar, mostrei à tia Janete uma pequena tatuagem que tinha acabado de fazer. No meu antebraço direito duas crianças de mãos dadas: um menino e uma menina. Estes são meus filhos, falei. Tia Janete nunca mais tocou no assunto de gra- videz, casamento, filhos.

2

Tia Janete é proprietária de um salão de beleza. Especializou-se em maquiagem para festas, aniversários, comemorações de quinze anos, casamentos, bodas de prata e batizados. Ela nunca se casou e não teve filhos. Apesar da crise econômica, tia Janete está tranquila. Enquanto as pessoas acreditarem no casamento, as finanças vão bem. No último feriado, viajou com um grupo de amigas, todas divorciadas, para Caldas Novas.

3.

A mãe de tia Janete se mudou de Sete Lagoas para Belo Horizonte em 1958. Antes de alugar a casa da rua Euclásio, morou em um pensionato, no centro, atrás da igreja da Boa Viagem. O estabelecimento proibia a entrada de homens. Quando uma moça beijava um rapaz na porta do pensionato, ela levava uma advertência. Quando uma moça beijava outra moça, era expulsa do pensionato.

4. A mãe de tia Janete prestou vestibular para enfermagem e arrumou um traba-

lho no INSS. Infelizmente, não conseguiu conciliar estudo e trabalho e abandonou a escola de enfermagem. Depois de se separar, alugou uma casa de dois andares no

25

26

Santa Efigênia e foi morar com as duas filhas pequenas. No andar de baixo, havia três salas, uma cozinha com copa, um banheiro, uma pequena área de serviço e um terreiro onde batia sol. A mãe de tia Janete gostava de plantas e tinha uma horta: nascia almeirão que era uma beleza! No andar de cima, a mãe de tia Janete montou uma enfermaria, obedecendo com disciplina as normas de higiene. Ela trabalhava a madrugada inteira. Antes de iniciar os procedimentos, conversava com as mulheres que aguardavam ansiosas na antessala do quarto principal:

não naquele momento; não com esse homem; não depois de um estupro; não antes de terminar meus estudos; não porque tenho três filhos; não porque meu pai me mata se ele descobrir; não porque o pai da criança é casado; não porque eu quero mudar de cidade; não porque eu não quero ser mãe; não porque eu quero estudar; não porque esse homem não presta; não porque eu não tenho como sustentar uma criança; não porque a criança não vai ter pai; não porque eu nunca pensei sobre isso antes; não porque eu sou jovem demais; não porque eu sou velha demais; não, porque não, por- que não, porque não.

De manhã, depois de arrumar as filhas para ir à escola, a mãe de tia Janete dava um beijo estalado na bochecha de cada uma das meninas e ia para o seu quarto dormir um pouquinho.

' Flávia Péret é escritora, professora e pesquisadora. Mestre em Teo- ria da Literatura pela Faculdade de Letras da UFMG. Em 2018, recebeu o prêmio Jean-Jacques Rousseau, pela Akademie Schloss Solitude (Alemanha) pelo projeto Uma Mulher (livro e site de escri- * ta expandida). Publicou os livros: Imprensa Gay no Brasil (2011), 10 Poemas de Amor e de Susto (2013), Outra Noite (2014), Novelinha (2016), Uma Mulher (2017 e 2018), Os Patos (2018), Mulher-Bomba (2019) e Instruções para montar mapas, cidades e quebra-cabeças (2021). Vive e trabalha em Belo Horizonte. Foto: Bianca Sá.

MEIO SÉCULO

Germana Accioly

Na ponta dos dedos desenho palavras, contornos palpáveis para meus pensamen- tos voláteis, desalinhados, aleatórios. Os dias densos, turvos e por vezes intragáveis ganham um certo frescor, tons pastéis, quando relatados. O caminho entre os neurô- nios e o teclado é fluido.

Outro dia, conversando com meu filho, falei sobre a importância de não colocar o carro na frente dos bois. De esperar o tempo ser cumprido, mesmo quando é espicha- do. O tempo das coisas. Falei que antes de olhar à frente, é preciso olhar a paisagem no caminho, que olhar pra trás ajuda a ver o quando caminhamos. O horizonte pe- rene é necessário. Os pés no chão, fundamental.

Tento introjetar este conceito de “meia idade”. Me olho no espelho e a falta de co- lágeno na pele começa a denunciar as décadas vividas. Intensamente vividas. Custo a entender este descompasso entre corpo e mente. Uma pitada de pressão cultural. Uma mulher de quase 50 anos. As novas linhas do rosto, os fios vermelhos que correm nas pernas, um olhar talvez mais plácido.

Vejo o meu corpo respondendo diferente. Penso na menopausa que não deve tar- dar. Por que espero? Pelo que temo? Os rótulos que busco apagar me perseguem. São manchas de DNA ancestral na minha pele. Esta, aliás, pede mais cuidados. Respeito meu metabolismo físico e emocional.

Quero colecionar história e memória. Reminiscências da infância, toalhas renda- das coloridas, doce de leite coalhado, guizados de panela de barro no fundo do quintal. Guardo bilhetes imaginários, fotografias nunca reveladas, mapas de mim. Banhos de mar na praia do Futuro, carnaval nas matinês, passeios no parque 13 de maio, sorvete de pitanga e tapioca da Bacana.

Eu sei, eu sei. A gente fantasia. Despigmenta e colore a vida.

O futuro, o ano que entra, o novo amor. A gente idealiza o próximo emprego, as férias que vem, a ideia de felicidade. E os castelos se movem, até cair.

27

28

Meio século, tempo inteiro. Uma inauguração constante de mim, cabendo cada vez mais no caminho traçado. São bodas de ouro com a vida. Um casamento com tudo a que tenho direito.

O LUTO É MEU VERBO

Germana Accioly

Preciso escrever um texto novo. Não exatamente fresco. Um texto que acredite em si mesmo, para convencer os outros. Um texto-canção, texto-soneto, um texto avulso.

Uma mensagem de mim, desenho que mostre a alma. Numa semana densa, do- lorosa e profunda, preciso escrever um texto. Quando morre uma mulher, morro junto. Quando se vai uma irmã, perco um pedaço de mim. Uma morte etérea, um torpor.

O luto me veste. Dizem que depois entenderei melhor a vida ou que, conhecendo a morte, viverei melhor. A dor, companheira dos primeiros dias, transformada em lembrança, é tempero para o futuro. A maturidade que estes momentos trazem...pre- ciso escrever um texto para expurgar a alma.

Preciso escrever um texto mais poético. Olhar no olho do meu momento e tradu- zir. Encontrar nas pistas que a vida me dá. Procurar nos gestos as traduções, teclar as tristezas, rimar OS Vazios, contar OS Versos.

Um texto preciso que alimente o meu profundo pesar. Frases que libertem a gar- ganta afônica que impede o grito. A morte me tirou a voz e a poesia e isso não se- ria o fim?

Uma mensagem no celular, a notícia se multiplicando nas redes sociais, o corpo num rebuliço frenético, os olhos pingando que nem renite, as mãos trêmulas, o cabe- lo seco, os pés titubeantes. Uma nova realidade vai sendo costurada a mão.

Sinto o peito remoer. Parece que a alma inchou, cresceu mais que eu. A verdade irreversível se expande. Vai virando realidade. A crua e mal temperada vida se pro- jeta em mim.

Roubaram a minha voz. E eu ainda tinha tanta coisa pra dizer... Sem o grito, res- ta o luto.

Escrever é mais preciso.

29

30

Germana Accioly é escritora e jornalista. Publicou Não é sobre você (Selo Mirada, 2021). Escreve no blog Perder de Vista.

SÉQUITO

laranda barbosa

Para Raimundo Carrero

O apito ordena. O som rufado percorre a pele de resposta da caixa de guerra e convoca a agudeza do tarol. O gonguê pronuncia frases rítmicas para unir as graves alfaias à suavidade do ganzá. No baque de marcação o povo de terreiro se agita. O convite faz os foliões do Mercado da Ribeira gritarem e aplaudirem a festa dos coroados. O cortejo começa. Um batuqueiro dentro de cada contratempo. Um sol para cada cabeça. Lágrimas e suor sincopados guiam a evolução do imalê rumo ao Amparo. A calunga flutua nas mãos-nuvem das damas do paço, o balé dos agbês acompanha a corte que abre espaço para a realeza. Sob o pálio carmim e dourado, que sobe e desce no ritmo cadenciado da percussão, surge impávida a rainha.

Ori sustentando a coroa, o corpo real performa imerso no vestido púrpura e, protegida pelos lanceiros, Ianara saúda imponente os súditos. A multidão se confunde nos Quatro Cantos e, em homenagem a Olinda, Recife e Pai Edu, Expedito Baracho nos convida a dar as mãos e entoar Essa ciranda quem me deu foi Lia que mora na Ilha de Itamaracá. A bruxa sobrevoa a Misericórdia as placas de LATÃO 3 É 10 enfeitam as calçadas a orquestra de frevo frente a frente com o carro da bateria de samba reaviva Clídio Nigro ao som de Olinda quero cantar a ti esta canção. O bloco lírico encontra o maracatu, o porta-estandarte no fim de uma pirueta se depara com os olhos da soberana, impassíveis.

O folguedo reacende lembranças quase esquecidas, paralisa os movimentos, faz o abre-alas, no balbucio da marchinha saudosa de Edgar Morais, declarar que A dor de uma saudade vive sempre em meu coração ao relembrar alguém que partiu deixando a recordação nunca mais... Hão de voltar os tempos felizes que passei em outros carnavais.

A indiferente rainha arruma o vestido, enxuga a testa com os dedos imersos nas luvas brancas. No frevo canção de Mestre Ambrósio o desdém explode, pois Nem vendaval, nem tempestade vão abalar ou sequer incomodar onde alegria fez um lar

SI

32

sempre em festa, como esta e hoje, pra comemorar o doce enterro da saudade.

As ladeiras fervem nas visões frenéticas da multidão que tenta forçar a passagem em meio a paródias, súplicas e falsas reclamações Por que parou, parou por quê? ai que calor, ai que calor, ai que calor, morena, traga a cana que a cerveja acabou.

Pandeiros para o alto, clarins, tubas e trompas sopram nos ouvidos dos passistas que é preciso esperar. Maracatu, bloco, bateria e fanfarra se espremem. As castanholas estalam nas mãos dos mascarados. No vai e vem das reminiscências o porta- estandarte pausa a evolução. A ponta do mastro descansa no copinho do talabarte. O arrependimento fantasiado de ingratidão, eternizada por José Menezes e Neuza Rodrigues, escapole da boca Se eu pudesse lhe daria o céu, a terra e o mar Mandaria pratear toda a avenida pra ver você passar Eu não sei o que fazer para lhe agradar fiz tudo mas você não quer voltar.

Impetuosa, Ianara se volta para a bateria de samba, onde Jorge Aragão, Dida e Neoci Dias cantam o hino perfeito para debochar do vexame do vexilário Chora não vou ligar não vou ligar chegou a hora vais me pagar pode chorar pode chorar mas chora.

A alteza recebe os aplausos dos foliões. Os sprays lançam espumas no vento inexistente, o mormaço tatua camisetas nos corpos enfeitados com glitter, Chico Science transpira sob o sol do meio-dia e se lembra que Uma cerveja antes do almoço é muito bom pra ficar pensando melhor.

O apito alerta. O baque de parada faz o sangue insurreto ferver ainda mais quando a majestade ouve mãos estalarem no couro dos atabaques. O baque virado embala as catirinas e as baianas esbanjam riqueza. Os braços da monarca balançam, os movimentos se afinam com os batuques e, marcado pelo compasso da toada, o cetro aviva o intenso brilho do seu rosto. O público domina e anuncia Nagô nagô rainha se coroou.

O porta-estandarte aproveita a chegada de Tim Maia e oferece o braço à rainha, implorando Vou pedir pra você ficar vou pedir pra você voltar Eu te amo eu te quero bem Vou pedir pra você me amar vou pedir pra você gostar.

Ianara desvia o olhar e Ramalho pergunta Quantos aqui ouvem, os olhos eram de Quantos elementos amam aquela mulher Quantos homens eram inverno, outros verão. O rei, vinte anos mais jovem, ori coroado, espada cruzada no peito, olhos fechados, inclina levemente o corpo para aquela insubmissa dama enquanto Ari Periciano e Presidente revelam o segredo: Feitiço de amor tão louco me deixou E o

cheirinho de loló no ar me fez enfeitiçar deixou meu coração ligado em você.

O apito comanda. No baque de arrasto um dos súditos levanta o manto régio cravejado de pedrarias. Os monarcas se beijam na sincronia dos sorrisos, harmonizam os passos, exalam cumplicidade. O cortejo segue caminho num baile lento. A Noite dos Tambores Silenciosos os espera.

“Taranda Barbosa, formada em Letras Português-Espanhol, pela

IM UFPE, possui mestrado e doutorado em Teoria da Literatura pela

| mesma instituição. Salomé (selo Mirada), novela histórica é sua

|. primeira obra ficcional longa. A autora possui contos em antologias

|, erevistas de arte, assim como diversos artigos científicos publicados | 'em periódicos especializados em crítica literária.

33

34

SUGESTÃO DE LEITURA

ESPAÇOS,

MEMÓRIAS E LUTAS EM

A MULHER DOS PÉS DESCALÇOS, DE SCHOLASTIQUE MUKASONGA.

laranda Barbosa

“Recordar o passado é sofrer duas ve- zes”, diz a letra da canção romântica com- posta por Miltinho Rodrigues e Pitangui. Em se tratando de Scholastique Muka- songa, recordar é homenagear a própria mae, Stefania, a mulher dos pés descal- ços, a líder, a guardiã das tradições, a mãe protetora, a estrategista, a curandeira, a conselheira... É trazer à tona um país ig- norado, assim como vários outros países africanos, que se autodestruía geográfi- ca, antropológica, social e culturalmente devido a disputas étnicas acentuadas de modo exponencial pela neocolonização. É levar ao mundo o léxico relacionado ao cotidiano de uma Ruanda colonizada pela Bélgica. É dar vazão aos horrores relacionados aos conflitos étnicos, ao ge- nocídio, aos períodos bélicos. É ministrar uma aula de história contemporânea atra- vés de uma narrativa cujo alicerce é a não ficção criativa, ou seja, aqui entendida,

basicamente, como a apresentação atra- vés de toques criativos e trabalho com a linguagem de relatos reais advindos da memória, dos registros documentais e, sobretudo, das vivências. Esse é o teor de A mulher dos pés descalços, da escritora ruandesa Scholastique Mukasonga:

Talvez as autoridades hutus, postas para governar uma Ruanda outra vez independente, esperassem que “os tutsis de Nyamata fossem aos poucos dizimados pela doença do sono e da fome. A região para onde eles foram levados, Bugesera, pa- recia hostil o bastante para tornar ainda mais incerta a sobrevivência dos “exilados do interior”. Ape- sar de tudo, a maioria sobreviveu. Com coragem e solidariedade, eles conseguiram enfrentar a terra hos- til e cultivar um primeiro terreno, que se não lhes poupou a penúria, ao menos impediu que morressem

Foto: divulgação

de fome. E, pouco a pouco, as ca- sinhas improvisadas dos desterra- dos se tornaram vilarejos Gitwe, Gitagata, Cyohoha —, onde todos se esforçavam para fingir um coti- diano que quase nunca amenizava o sofrimento lancinante do exílio (MUKASONGA, 2017, p. 9).

O panorama da guerra vista através das retinas de uma mulher também incide luz sobre problemáticas intrínsecas ao gêne- ro como, por exemplo, a divisão sexual do trabalho e a valorização do homem, pois as mulheres abençoadas são aquelas que têm filhos homens que eles perpetuam as famílias. Vale a pena ressaltar que ape- sar dessa valorização, a autora coloca as mulheres em primeiro plano, sobretudo, a própria mãe. O papel da mulher enquanto

narradora e personagem desses contextos revela visões até então não abordadas, fe- ridas e consequências profundas:

De todos os sofrimentos vividos com a deportação e o exílio, um dos piores para as mulheres era não po- der cuidar dos filhos como antiga- mente, como elas sempre viram as próprias mães fazerem. Em Nyama- ta no pátio empoeirado da escola, era impossível encontrar as folhas benfazejas do umubirizi, e o mato seco de Bugesera tinha plantas desconhecidas, cujos poderes e pe- rigos eram ignorados. Quando che- garam a Gitwe e Gitagata, as mu- lheres tinham, antes de mais nada, de arrumar um jeito de não morrer de fome antes de poderem voltar a cultivar as plantas medicinais e abóboras que constituíam a farmá- cia natural ruandesa. As mães de família estavam desesperadas. Seus filhos tinham o ventre fervilhando de cobrinhas que consumiam tudo por dentro. Certamente, a saúde deles estaria comprometida para sempre, minha mãe tinha certeza de que Juliene, que nascera em uma sala de aula em Nyamata e não re- cebera as lavagens salvadoras, teria a saúde fraca para sempre (MUKA- SONGA, 2017, p. 65-66).

A saúde fraca de Juliene é um reflexo da enfermidade sofrida por Ruanda, cujo ventre fervilhava de vermes do neocolo-

35

36

nialismo e dos antigos conflitos. Entre os sintomas anteriormente mencionados e diversos outros que podemos imaginar, Mukasonga também chama a atenção para a perda do direito de ir e vir ou de entrar em determinados estabelecimen- tos. Em contrapartida, ela nos brinda com a perseverança das mulheres em manter a rotina de tradições, tais como a colhei- ta, as cerimônias de passagens, as festas matrimoniais, os rituais de nascimento, os cultos ao sagrado, as cosmovisões e os ideais de estética:

Para minha mãe, Mukasine encar- nava a própria beleza: era alta, algo que herdara do pai que parecia uma lança, tinha a pele clara de algum tipo que chamamos de inzobe e que nada tem a ver com aquela palidez preocupante que, dizem, atrai os trovões; ela tinha os cabelos com- pridos, como os de Mukasonga, se alegrava minha mãe, formas avan- tajadas e que pernas! Que coxas! Mukasine tinha todos os encantos que os ruandeses atribuem às vacas e, para uma inyambo, uma vaca da realeza! Além do mais, chamava-se Isine, a vaca de vestido dourado! Minha mãe não parava de repetir que tinha encontrado uma inyam- bo! (MUKASONGA, 2017, p. 108).

A mulher dos pés descalços, não segue uma linha temporal linear, haja vista o fato de estar repleto de elementos mne-

mônicos. Assim, a autora faz muitos des- lizes no cronotopo, ou seja, no tempo e no espaço, ou melhor, nos tempos e nos espaços. Nesses deslocamentos, mescla- dos com lembranças e informações de di- versas áreas, nos deparamos com trechos que denunciam, provocam, nos mostram o quanto o ser humano pode ser cruel, trazem à tona os horrores de uma guerra, sobretudo para as mulheres:

Em 1994, o estupro foi uma das ar- mas usadas pelo genocídio. Quase todos os estupradores eram portado- res do vírus HIV. Nem toda a água de Rwakibirizi e de todas as nas- centes de Ruanda teriam bastado para “lavar” as vítimas da vergonha pelas perversidades que sofreram. Nem toda a água seria suficiente para limpar os rumores que corriam dizendo que essas mulheres eram portadoras da morte e fazendo com que todos as rejeitassem. Contudo, foi nelas, nelas próprias e nos filhos

. nascidos do estupro que essas mu- lheres encontraram uma fonte viva de coragem e a força para sobrevi- ver e desafiar o projeto de seus as- sassinos. A Ruanda de hoje é o país das Mães-coragem (MUKASON- GA, 2017, p. 153-154).

O registro das memórias de Scholas- tique Mukasonga é imprescindível para conhecermos outras realidades a partir da retina daquelas mulheres que sofreram, e ainda sofrem, em contextos de guerra.

Poderíamos tomar emprestado o concei- to de Conceição Evaristo e dizer que A mulher dos pés descalços se encaixa em narrativas pautadas nas escrevivências. Também é possível recorrer à escritora Chimamanda Ngozi Adichie e refletir- mos sobre o perigo de uma história única. Dessa maneira, Mukasonga lança flechas em nossas reflexões a fim de nos provo-

literária.

car, de nos fazer perceber o quão perigoso é generalizar. A Ruanda que nos foi apre- sentada nos impele a compreender rea- lidades outras ao mesmo tempo em que pensamos sobre a nossa própria conjun- tura social. Somos tão diferentes assim? Estamos vulneráveis a ponto de atraves- sar problemáticas parecidas? O que fazer para ajudar Ruanda?

Scholastique Mukasonga é uma escritora tutsi de Ruanda nas- cida em 1956 e residente na Normandia, França. Foi sobrevi- vente dos massacres no Ruanda ocorridos na década de 1990

Iaranda Barbosa, formada em Letras Português-Espanhol, pela UFPE, possui mestrado e doutorado em Teoria da Literatura pela mesma instituição. Salomé (selo Mirada), novela histórica é sua primeira obra ficcional longa. A autora possui contos em antologias e revistas de arte, assim como diversos artigos científicos publicados em periódicos especializados em crítica

37

38

SUAS AMIGAS

laura Cohen Pabelo

você suas amigas mais velhas envelhecendo

vão ficando senhorinhas nas roupas elegantes delas e mais experientes que você em mamografias

elas vão entender tudo que você está passando agora e não vão cobrar justificativas enquanto servem leite

no tchai feito em casa e tiram os pães de queijo do forno

quando elas falam você escuta, você tem medo de perder o entendimento de cada uma delas caprichos e conselhos biográficos e bibliográficos sobre hidratação, desengordurantes e a resistência à novidade, você vai saudar o conhecimento delas elas sabem como anda o mundo porque puxam

um touro que move o cosmos pintado por elas mesmas

suas amigas mais velhas se divorciam e namoram buscam o filho na escola e cortam a franja da filha e metem um bebê de seis quilos no seu colo

enquanto elas penteiam o cabelo

de repente, você sente a vida na ponta da unha

depois de enfrentar os piores problemas

da humanidade inteira, elas compram vinho na promoção e decidem parar de fumar de repente, a maconha se torna mesmo medicinal

aparecem as doenças e ficam os cabelos brancos

você sabe que elas não vão durar para sempre

no meio dos erros delas você se senta

Laura Cohen Rabelo publicou os romances História da Água (Im- pressões de Minas, 2012), Ainda (Leme, 2014) e Canção sem pala- vras (Scriptum, 2017); e as plaquetes de poesia Ferro (Leme, 2016) e Escrever é uma maneira de se pensar para fora (Leme, 2018). Mes- tre em estudos literários pela Faculdade de Letras da UFMG, é idea- lizadora e coordenadora do projeto Estratégias Narrativas, onde mi- nistra cursos e ateliês de produção literária. Faz parte da coordenação do selo Leme da editora Impressões de Minas e é uma colaboradora da À revista literária.

39

Aro Proc 04/03 124

CAVILDADES FAUDELIVAÃO

lorraine Damos

a mulher retirada encontra

entre máscara púrpura atirada

uma caixa corte e vinco

imagem de colagem prescindida em estilete contracultura

o som da época a apanha

por determinado tempo a volúpia

adjetivo-cor rancoroso esmaecer

fizeram-na azul

absolutamente impraticável

contudo um semblante

ao lado das mesas dobráveis fatiadas pelo tempo (copo vazio

afirmou ser sua origem vermelha a junção de

todas as cores ambientadas nas diversas e válidas

proporções

mas sempre grave e

solene

sobrando a imagem nas mãos

41

42

apenas uma palavra potentia e um rosto firmado por gesso

raphael

os tempos se passam e um segundo semblante pergunta

quem é raphael?

a mulher não se lembra

não se recorda

tampouco transparece sequer emoção do sibilante nome sob cola e jornal

é assim tão pouco

caminhar desmemoriada

sem nada mais a perder

e mais uma vez ela

acoplada nas fibras ferrenho tecer das migrantes

carrega papel em cano fustigado nas cinzas

dos mortos

salpica sendas por cristais enterrados

finge não ter pretérito invasivo no crânio do teto

por uma rejeição

Os ausentes são sempre os piores

PROJETOS DE -UM ASPIRANTE QUE PENSAVA SER. LENDA

lorraine Damos

tornar ente físico abstrato no corpo ereto e

VOZ.

madeixas e lábios, eloquente e replicador, postura e imagem, carro e papel na estrada a seguir

por fim o ereto

futilidade da vida a entrar como

abstrato

um calendário adota conceitos pontuando saia plissada em três atos.

um, o encantamento entre estudo e adrenalina, quarto e solenidade, regrado mas extravagante características do primeiro desvairado a traduzir corpo em aparato documental, menor ou maior

mas sempre menor

dois, a devoração. tranquilizante escape das comprimidas compridas pernas anseio lançado à pulsão no interior da promessa

recaída em semblante feixe castanho

enfeitado por uma

casa de campo patrício romano

mas gruta

três, a convicção. no fim da estrada os pés em brasas, reerguendo o registro vocal no banco de trás, o único conversor do tempo

43

aurora estabilizadora

acordar atormentado

a queda d'água através de um único cartaz

eu, objeto

avaliação

as grutas partem na defesa da fantasia do excesso partido em grito mas silêncio

o fronteiro assegurador mas decrescente

não era os anos 50

com jardins realizados em grutas senão anos 80

o reviver dos dias gloriosos da juventude pensei e

caí

grutas recaem como fios de cabelo na fantasia por medo de um único documento

adornado por audível encantar

de um carro

um pico

um único rosto a descortinar

porém na verdade

foram construídas com outra aparência

são abrigos antiaéreos

Lorraine Ramos. Publicada em 12 revistas digitais e impressas, tais quais Vício Velho, Mallarmargens, Torquato, RelevO e Acrobata, Lorraine Ramos Assis, 25, é uma artesã do caos. É estudante de Sociologia, na UFF. Integrou a antologia Ruínas, da editora Patuá, e a antologia Literaturabr. Concedeu duas entrevistas no canal “como eu escrevo”. Colaboradora do

portal FaziaPoesia.

45

BAJO LA LONA

MARIA ALICE EDAGANÇA

Uma mulher caminha nas ruas de Porto Alegre, O Coração nos tímpanos.

Una mujer camina en las calles de Buenos Aires. Solo la luna la ilumina.

Uma mulher caminha na rua. O medo vida às sombras. De qualquer arbusto

uma ameaça.

É século 21.

Bajo la luna,

una mujer camina en las calles de Santiago de Chile. Ella no desiste.

Uma mulher, na rua, em Cabul. Las mujeres siguen. As mulheres, seguimos.

A caminhada da mulher ainda é um susto.

Maria Alice Bragança (Porto Alegre, RS). Poeta, jornalista, mestre em comunicação social, professora universitária de jorna- lismo e artes visuais (aposentada). Ex-diretora de comunicação da Associação Gaúcha de Escritores (2019/2020). Tem poemas publi- cados em português e em espanhol, em sites de revistas literárias no Brasil (Germina, Mallarmargens, Voz Pública da Poesia, entre outras), Portugal (InComunidade) e Espanha (Conexión Norte Sur Magazzine e Poémame), em antologias nacionais e em Portugal, além dos livros individuais Quarto em quadro, Cartas que não escrevi e Misterioso pássaro haicais. Participa do coletivo Mu- lherio das Letras. Em 2021, participou do Festival Internacional de Poesía FIP Parque Chas Luis Luchi 100 Afios (Buenos Aires, Argentina), com 100 poetas de 35 países. Atualmente, escreve a coluna Estante da Alice no site da Rede Sina.

47

“48

Aires (2016)

Performance Feminista - Buenos

FEMINISMOS

mariam pessah

eu venho de uma família

de mulheres poderosas

cuenta la leyenda que Adela minha bisa foi a dentista mulher de Argentina se fosse homem tenham certeza que a lenda falaria em eles nunca são “segundos” eles são grandes instantes horas

eternidades

Paulina mi abuela filha de Adela foi uma grande pintora uma das primeiras em criar

arte abstrato

49

50

(disso também fala a lenda familiar)

Alicia mi madre filha de Paulina e neta de Adela foi além de joalheira pioneira em agricultura orgânica e eu sou bis / neta / filha dessas bruxas

que não puderam queimar nas fogueiras do patriarcado.

mas eu (me) pergunto

pelo fato delas terem sido mulheres atuantes

elas foram feministas”?

o que é o feminismo?

o que faz de nós feministas?

elas todas foram mulheres com altas personalidades

elas todas derrubaram barreiras.

quando eu nasci em 1968 Paulina era separada

elas todas a gente acredita

foram

livres independentes autônomas

isso

fez (d)elas feministas?

o feminismo vai além de ler a Simone de Beauvoir

certamente diria alguém

6000bvio diria outra alguém

nem tão Óbvio acrescentaria uma mulher a quem pelo fato de não ter lido à francesa

gritaram-lhe que não era feminista

para mim o feminismo é o contágio é estar em grupo com outrAÃs é dar muitas risadas e abraços é se olhar nos olhos e se reconhecer é se encontrar na fala de outrAÃs é nadar nas mesmas águas é criar teoria coletiva é ser e se sentir escutada e (ou)vida é continuar o caminho das

amigas companheiras

ancestrais

61

52

a ação individual “pode” ser feminista? as bruxas da minha família

tiveram muitas forças

tiveram muitos sonhos

tiveram muita garra

tiveram bens materiais que ajudaram na concretizAção

ainda assim eu acredito que quando nos juntamos entre várias e sonhamos mundos e nos identificamos umas com as outras nos muda nos toca nos transcende

nos inflama

a essas mudanças essas experiências coletivas eu as chamo a Chama a faísca

de feminiSmos.

essa paleta de tantas cores que inclui

os meus sonhos

tuas vivências as dores dela

as descobertas de todAs nós.

quando juntas invocamos a Lilith

rimos com Safo

lemos a Gloria

nos banhamos nas águas de Oxum

pulamos as ondas de Iemanjá

mordemos a palavra junto a Conceição

catamos papéis com Carolina enquanto nos perguntamos :

e se não nos tornamos mulheres?

mariam pessah - Nasci em Buenos Aires (1968) e desde janeiro de 2001, quando vim participar do I Fórum Social Mundial a Porto Alegre, fiquei por aqui. Sou fotógrafa desativada, ARTivista feminista, escritora e poeta graduada em Escrita Criativa pela PUCRS. Meu livro mais recente é Grito de mar poemas bilíngues, Editora Taverna 2019, edição, 2021.E estou com um romance saindo do forno. Desde 2017 organizo em Porto Alegre o Sarau das minas que tem por objetivo visibilizar a escrita de autoria de mulheres Cis e trans, assim como de pessoas não binárias. Em pandemia continuamos em modo Zoom. Coordeno uma Oficina de escrita e escuta feminiSta e trabalho como tradutora.

53

54

Performance Feminista -

Buenos Aires (2016)

A BANÇARINAS

Marisa Teixeira

Não voltei a me deparar com o moço taciturno que me ensinou como fazer giros, mas com o feirante bonitão, sim. Perdi o receio de dançar com ele. Ele forrozeava comigo de um jeito diferente do de suas outras parceiras. A impressão era a de voar pelo salão, segurada pelo seu braço que volteava por completo minha cintura. Não se atrapalhava no compasso. Nem esbarrava em pessoa, mesmo com salão lotado. Era dono de uma energia que se sabia de onde brotava. Certa vez, por conta da euforia chegou a me suspender do chão. Divertia-se. Do meu lado, aquilo se afigurava uma experiência sensória. Difícil de ordenar em palavras. Tanto que cogitei com a Rita que ele tinha recebido um santo. Que nada, ele era ligado em duzentos e vinte. Mas que ele tinha sido tomado pelo espírito de uma criança, isso tinha. Eu adorava dançar com ele. Mas foi se afastando aos poucos. Num domingo, cheguei a ter a humildade de pedir-lhe uma senha. Nem assim. Não lhe faltavam parceiras. Elas se atreviam com convites. Um sábado, o encontrei com uma mulher ao embalo de música lenta. Coisa absolu- tamente imprevista. Rolava como uma deusa você me mantém, e as coisas que você me diz me levam além, tão perto das lendas, tão longe do fim. Fiquei observando. Ela era esguia, alta e loira. De cabelos compridos. Usava calça de naylon bege. Blusa de algodão branca com botões. Ele estava sério. Pela primeira vez. Como se fosse outra pessoa. Dançavam míseros dois pra cá, dois pra lá. Até que compreendi. Ele tinha encontrado a tampa da panela. Formavam um belo par. Desapareceu dos salões. Tor- nei-me uma forrozeira. Qualquer passo, qualquer giro, misturado com lambada ou estilizado como zouk. Aperfeiçoei com os meninos e os senhores da escola. Da últi- ma vez que estive na vila, um camarada troncudo me chamou para dançar. Tinha um abraço firme. É por que se conhece que um homem é bom de forró. Rodou daqui, girou dali. Fez que ia e voltou. De frente, de lado. Passo binário. Passo único. Bate coxa. Tudo o que tinha de direito. Até que deu o braço a torcer. Você não é fraca, não. Encarei-o com segurança. É, não sou fraca, não.

1 Crônica do livro A Dançarina, Editora Da minha aldeia, 2020

55

56

Marisa Teixeira nasceu na cidade de São Paulo e dedicou-se à psi- cologia escolar e educacional, à psicanálise e à pesquisa acadêmica. Em 2008 descobriu os salões de bailes. Em seguida, na tentativa de conciliar universos tão díspares, começou a narrar suas aventuras no formato de crônicas em seu perfil nas redes sociais, sob a categoria “A Dançarina “.

ESPEL MOS

Marta Viana

Esqueci o caderno na sala. Cabeça sempre cheia, difícil manter a concentração. Luz apagada, ar-condicionado desligado... o cômodo apenas iluminado pela luz exterior que atravessa a janela.

Nada do caderno. Desisto e busco sair. Não encontro a porta... vejo espelhos. Qua- tro paredes de espelhos. Percebo que não estou só. Pelo reflexo, vejo uma mulher num dos espelhos da sala. Meu reflexo se soma ao dela. Seu corpo e o meu mesclam-se numa figura viva.

Conheço-a. Tem os olhos da minha mãe. Cabelos fartos, negros. Ela fala comigo, mas, engraçado, não escuto sua voz. Escuto sim sua risada, clara. Como se soubéssemos sobre coisas nossas, variadas, confidências ali vão sendo trocadas.

Girei pra mostrar como é lindo o meu vestido. Foi quando a perdi de vista. Girei cada vez mais rápido, buscando-a. No espelho vi-me só. Meu coração partiu-se em dor. Senti-o branco. Não mais vermelho.

Soubesse eu daquele encontro, teria agarrado com mãos e dentes. Comeria tudo, como goiabas, para sentir aquilo tudo dentro de mim.

Marta Viana é meu nome. Do aramaico, Marta significa Senhora, Protetora do Lar, Dona da Casa. Hoje me conecto com a Marta dona da casa, da casa dela, que quer ler, escrever, bordar, pintar, sentir... Povoar esta casa de significados e afetos.

57

st

NA

e Eat,

59

MA LS» UMA

Naiana Íris

“Ser mulher é...” começam os discursos dos homens, acompanhados de cheiros e doces que não dizem nada.

Certa vez,

uma moça sapeca, escritora cearense, me disse: - Viver é doloroso. Tem os seus prazeres, mas, de um modo geral, é uma dor imensa.

E eu estremeci. Porque entendi profundamente o significado de existir em mim,

com todas as dores. E com todos os perigos, como sugeriu Riobaldo, em Grande Sertão: veredas.

É muito perigoso esse negócio de viver Principalmente para nós,

mulheres,

pois os medos

se transformam em dores imensas. Incicatrizáveis. Viver, perigosa e dolorosamente, nos indica que devemos ser

resistentes.

A gente continua. E treme quando ouve falar em um abusador, mesmo que não seja o nosso... porque todos, afinal, têm a mesma cara.

Lembram das mulheres no dia 08 de março com flores e chocolates, mas

60

no resto do ano somos: um nome no jornal, a esposa do vizinho, um corpo na estrada, a puta na calçada.

- Viver é muito perigoso... - Disse Riobaldo. - E doloroso. Acrescentou a minha amiga escritora.

Tento falar alto e sorrir muito. Mas falho todas as vezes que uma mulher se torna silêncio. Nessas horas não me importa se eu a conheci. Se era pobre ou rica, gorda ou magra, se falava muito ou se ria de graça, se bebia ou se fumava... Ela sou eu!

O certo, o certo mesmo, é que eu, uma gotinha no oceano, posso fazer a diferença para o futuro. É a batalha de hoje que me faz mais uma. Apenas mais uma. Mais uma mulher indispensável para o longo caminho que é alcançar o justo. O necessário.

Luto.

Por mim. pelas mulheres de ontem. Pelas mulheres de hoje. Pelas mulheres que colherão os frutos amanhã.

Lutamos.

Porque somente nós podemos amparar as lágrimas e entender os perigos e as dores de existir Mulher.

Sozinha e aos montes. Porque é de mais uma em mais uma que se faz a multidão.

“Não serei livre enquanto alguma mulher for prisioneira, mesmo que as correntes dela sejam diferentes das minhas.”

Audre Lorde

Naiana Íris, escritora, cantora, ilustradora, colagista, empreendedo- ra, graduada em Letras e Mestra em Literatura Comparada, pela Uni- versidade Federal do Ceará. Organizou, em 2020, junto com a escri- tora Vitória Andrade, a Antologia O amor nos tempos de lonjura (Selo Mirada). Autora do livro Além da máscara (2020), também publicado pelo selo Mirada. O trabalho reúne poemas sobre a Pandemia de Co- vid 19. Expressando sentimentos e fatos pessoais, ocorridos ao longo do ano de 2020. Membra do Coletivo Tear de histórias, espaço dedi- cado à crônica produzida por escritoras nordestinas. Também deixa os seus escritos e trabalhos como artista visual em seu blog e no Ins- tagram, ambos intitulados “A ponte para o Ser” ((Daponteparaoser).

61

62

BERUU DE COCONEMRRADICÃO

NA CO TDADE ONE NASCE Paula Anias

Amalia Santana, Dona Nenzinha, nasceu em 12 de maio de 1935, na comu- nidade do Araça, no município de Cruz das Almas, localizado no Território de Identidade do Recôncavo da Bahia, filha de Maria Madalena Matildes Santana e Martins Gomes Peixoto. Casou-se logo cedo com Demézio dos Santos consti- tuindo família de 12 filhos. Uma mulher a frente do seu tempo , transformou o bei- ju que na tribo o indígena fazia em prefeita e rara iguaria, que no mundo existe , aqui na Bahia.

Sabia que o Brasil é a terra nativa da mandioca, raiz sagrada dos povos origi- nários, ela é encontrada pelo menos 7 mil anos da Amazônia até a Bahia, da sua matéria-prima é extraída a goma, o beiju, a tapioca e a farinha nossa de cada dia que não pode faltar no prato do nordesti- no. Com ela da pra fazer muita coisa sa- borosa: se a juntarmos com o amendoim, teremos a paçoca. Fonte de cálcio , fibra e vitamina C. não vale exagerar, se- não pode engordar. Assim a produção de

beiju e de farinha virou uma das princi- pais fontes de emprego e renda na vida de muita gente no interior da Bahia.

Em 1976, dona Amalia Santana, Dona Nenzinha, costureira de mão cheia, tam- bém passou a fazer farinha e beiju para ajudar no sustento da família. O beiju de Dona Nenzinha era vendido pelas ruas de Sapeaçu e Cruz das Almas por seu mari- do e por seus filhos, as clientes mais fiéis eram as mulheres que trabalhavam nos armazéns de fumo, elas sempre degusta- vam nos intervalos da labuta, quando os vendedores estavam de prontidão nas portas dos armazéns as esperar.

Até que um dia, a receita do beiju iria mudar, uma das clientes que até hoje, nin- guém sabe ao certo explicar , mandou um recado : diga a sua mãe para colocar na receita do beiju açúcar, leite e coco rala- do que vai ficar gostoso ! Nascia então, o primeiro beiju de coco do recôncavo em 1976 na comunidade do Ponto Certo, di- visa entre as cidades de Sapeaçu e Cruz

63

64

das Almas , revolucionando toda a econo- mia criativa e solidária da nossa região. Amalia Santana e o beiju de coco, criação e personalidade que se confundem . Sua tradição se perpetua no Recôncavo da Bahia , fortalecendo nossa ancestralida- de e territorialidade. Ai que alegria senti, Beiju de coco é tradição na cidade onde nasci!

CGA o Bim GEO

Daula Anias

Reza de Bia, pra tirar mufina , mandinga e olhado

Maria José Menezes, dona Bia, nasceu pelas mãos de Ana parteira famosa , na Rua 15 de Novembro no dia 15 de outubro de 1944, na cidadezinha de Sapeaçu, terra de povos originários , Tupinambás e Cariris, no Território de Identidade do Recôn- cavo da Bahia. Sambaderia desde menina , aprendeu a cantar e dançar nas rodas de samba e batuque depois das rezas com seus avós maternos , Eremita dos Santos Me- nezes e Pedro Adolfo de Menezes e com sua mãe Adelaide Santos Menezes a arte da benzedura .

Reza minha filha ,com as folhas que tem o poder de curar, tirar todo o mal , espantar e o olhado retirar, pra mandinga quebrar. Dona Bia é uma matriarca que cultiva crenças seculares, tradições, costumes e peculiaridades do povo baiano no Recôncavo, que ajudam a perpetuar nossa ancestralidade, identidade e sentimento de pertencimento , elementos que compõem matrizes do sincretismo religioso e faz com que a Bahia se torne um estado de graça.

Reza de Bia

MARIA COM DOIS TE BOTARAM

COM TRÊS EU TE TIRO

COM OS PODERES DE DEUS E DA VIRGEM MARIA

SE FOR DE GORDA , PRAS ONDAS DO MAR...

SE FOR NO FALAR, PRAS ONDAS DO MAR...

SE FOR NO TRABALHAR, PRAS ONDAS DO MAR SAGRADO ONDE NÃO CANTA GALO, NEM GALINHA

COM OS PODERES DE DEUS E DA VIRGEM MARIA

65

66

Paula Anias, escritora, poeta, produtora cultural, contadora de Histórias, contista, multiartista do Território de Identidade Re- côncavo da Bahia. Autora da obra História sua e minha, Bei- ju de coco da Nenzinha, publicou em diversas antologias e coletâneas, faz parte do Mulherio das Letras em Portugal e da AITM.L., Coletivo Mulheres Maravilhosas, compõe a Câmara Técnica de Cultura do Recôncavo e de Turismo do Vale do Ji- quiriça o Observatório Nacional de Cultura.

67

69

Desina Carvalho

“SUCEDE QUE ME CANSO DE SER naMTS E

Acontece que me canso de ser homem Fazer parte desta raça de perdidos Caminhar por distinto e diverso

dentro de mim perdida em desertos E me canso de pentear cabelos ver telejornais usar micro ondas e de sentir este cheiro de esgoto que escorre pelas veias das grandes cidades... Acontece que algo de vegetal neste humano que me habita este húmus de mim se enterra cada vez mais em busca das alturas onde me lanço crescimento vegetativo em lugares onde não irei meus braços são orações pelos filhos do medo que não terei

Ao Pablo Neruda

mu

DBO AMOR NO TEMPO

Para não me magoar faz de tudo, cava túneis, constrói diques, põe o casaco sobre a lama, descobre passagens secretas, adia setas, salta de um precipício e voa...

Tudo à toa, me magoa.

Faz tudo para não me magoar, omite, deixa de emitir sinais, acende vela para os ancestrais, tilinta guizos no seu tronco oco e soa...

delicadamente, me magoa.

Me magoa para não me magoar. Me magoa com sua pura ternura. Me magoa com os gestos de candura. Me magoa a prazo, para me poupar. E quando eu penso que passou, que ficou para sempre no tempo que voa, surge sem rosto, imemorial, com a sua figura inocente e boa, e com sua gentileza crua,

ternamente me magoa

71

73

“O QUE VINA ÁGUA E O QUE A ÁGUA ME DEU”

Frida Kahlo

Na minha água de origem ainda no ventre da mãe vi com meus olhos de pele, meus brutos olhos virgens E sãos,

A paz.

Sem dor, nem problemas sem dúvida ou fome nem mulher, nem homem Flutuante emblema

De paz.

E o que me trouxe a água quando, me expulsou? dúvidas, problemas, fome, sede, prazer e medo luta, beleza e dor

74

Regina Carvalho, atuante desde 1981, a artista plástica e ar- te-educadora, é graduada em Artes Plásticas pela UFPE com especialização em arte-educação, participou de três salões quatro exposições individuais e inúmeras coletivas, fez parte da Brigada Henfil que pintava murais para o PT, nos fins da década de 80. O corpo de sua obra se desenvolve em cima de técnicas de desenho, poesia, pintura, colagem, gravura e livros de artista. Ela pensa um campo pictórico de convivência entre texto e imagem. Tem 8 livros publicados, sendo um de dese- nho e sete de poesia. Além disso também é ilustradora científi- ca, fazendo parte do laboratório de morfotaxonomia do CCB- UFPE desde 2008, tendo desenhos publicados em inúmeros artigos no Brasil e exterior e em capítulos dos livros: A Flora de Mirandiba, A Flora de Sergipe I e II. Contato: reginacarva- lho(Dhotmail.com

Sablina Cavalcante

poesia não,

não é fácil.

e tudo tão intenso, imenso,

que rasga e esgota ao nada.

eu estava cheia de vida,

ria de tudo que gritava,

falava, falava,

e agora,

argh... uma coisa em mim chegou...

e eu so penso em morrer,

so penso que dói,

so pergunto os motivos

e aquilo que eu ja tinha montado,

desmonta.

não, não é fácil, e sabe o que eu escuto?

se vira.

favelada,

75

mulher, feminista, ridícula,

esterica,

que se foda, eu também posso ter transtornos,

isso não é coisa de gente rica.

porra,

me deixa!

antes era “mimimi”,

A 66

agora é “cuidado, ta se rotulando”. que porra,

pra quê essa dualidade?

não sou eu que preciso entender,

são vocês.

se hoje me levantei viva, e sem uma chacina, é que eu tenho meus cuidados,

quem não cuida são vocês!

preciso ainda gritar pro mundo

que tenho transtornos 4

77

78

porque até hoje somos o século que não fala porra nenhuma disso

pode deixar,

tambem sei que sou mais que isso.

muito difícil ficar viva

muito difícil.

porra, as vezes a faca so não entra

porque quero a revolução escorrendo em folhas vivas.

me mantenho viva por revolução

me mantenho viva por revolução

e tudo que eu sangro vai florescer!

Sablina Cavalcante é filha de um amor que nasceu no carna- val de Morada Nova, minha infância foi inteiramente repercutida nos sertões do Nordeste. A tristeza foi uma grande amante de tudo que me transformei, no mais, minha autonomia foi quem ca- sou comigo. Artista independente, cursa teatro no IFCE e integra a coletiva baRRósas.

79

E AGORA CIS(TEMA)?

Thara Wells

E agora (cis) tema, como irá me excluir?

Ouvi que o pretexto era a falta da educação, que você mesmo me excluiu, em todas as vezes que riu de mim, me levando para bem longe do calor, do abraço, do sorriso, do afago e do amor.

E agora (cis) tema, como irá me humilhar?

Nas noites e noites que chorei sozinha no breu, no frio, perdida de esquina em esqui- na, contando poucas notas; você me viu e me confortou dizendo:

Seu Lugar é Aqui! E agora (cis) tema, como irá me incluir? Quando bati à sua porta procurando por oportunidades, você disse não!

Alegou que faltava a inteligência, a graduação, os certificados, os idiomas... Mas, se esqueceu que foi você mesmo que me violentou, me fazendo desacreditar.

E agora (cis) tema, como irá se justificar?

A falta de experiência comprovada, do conhecimento prático, a falta disso, a falta da- quilo...

Hoje não me falta nada; Hoje me sobra coragem para te questionar: E agora (cis) tema, como você irá me impedir?

Sei que achará uma maneira, mas me mantenho viva, pra você me Aplaudir.

80

O DIA EM QUE CONHECI PAGUÚ

Thara Wells

Pra mim era um dia da semana como outro qualquer. O tédio de ir à escola, no ensino médio, era somado a tantas coisas ruins, como por exemplo, ter que cruzar o bairro em que eu morava, ainda sem asfalto, até chegar ao ponto de ônibus. Eu reunia forças todos os dias para fazer e refazer esse curto trajeto, que às vezes parecia interminável.

Além da poeira que se levantava e deixava da cor de tijolo o meu uniforme esco- lar branco com listras azuis, tinha que passar na frente da vendinha da Sr.º M (nome fictício).

Sr.º M aparentava ter mais de 60 anos. De estatura mediana e franzina, tinha a pele bem branca, os cabelos negros, compridos e cacheados. As maçãs do seu rosto sempre exageradamente vermelhas eram um destaque à parte. Vestia-se de ma- neira diferente das outras mulheres da sua idade. Usava vestidos longos, nas cores pretas, roxas e vermelhas. Na cor branca, eu nunca vi. Como acessórios, usava muitas correntes em metal, com pingentes retorcidos.

Nas bocas pequenas do bairro diziam que era solteira e adepta da bruxaria. Lem- bro-me de ver algumas imagens de bruxinhas (bem idosinhas, narigudas e meio em- poeiradas) com a vassourinha nas mãos, decorando a sua caixa registradora.

A vendinha dela era bem humilde, com embutidos pendurados logo na entrada. Ela abria as portas de ferro religiosamente às 6 horas da manhã, quando o padeiro chegava para entregar os cestos de pães e os saquinhos de leite A, Be o C. Este últi- mo, a criançada da rua brincava dizendo que era o “xixi” da vaca. Foi ali, pensando o porquê das classificações do leite e analisando os perfis de quem comprava 04, o B

e oC, que comecei a refletir sobre os privilégios. Confesso que demorei muitos anos para saber qual era o sabor do tal do “leite tipo A”.

Na porta da vendinha, alguns “engraçadinhos” reuniam-se todos os dias, no final de tarde, para beber caipirinha e jogar baralho, sentados em uma mesinha de con- creto, bem em frente à entrada. Nesta mesinha de concreto, sempre os mesmos “en- graçadinhos” bebiam e riam das pessoas que passavam, assediavam as mulheres ou divertiam-se à custa de tipos “exóticos”, como os afeminados do bairro à época, ou de quem eles achassem “diferentes”, dentro da visão de mundo em que viviam. Era sempre um “fusuê” quando eu passava por ali. Não tinha outro caminho e confesso que sempre pensei na possibilidade de me teletransportar até a escola, coisa que nun- ca conseguiu fazer.

Numa tarde dessas, cheguei ao ponto de ônibus, às dezessete e quarenta e cinco. Eu sempre pegava o ônibus das dezoito horas. O trajeto até a porta da escola levava em média meia hora. Quando eu não tinha dinheiro para a passagem, ia “caminhan- dinho” e cantarolando, mas algumas vezes, durante esse trajeto, levava alguns xingos e alguns “sopapos” dos garotos mais velhos, então sempre que podia evitava a cami- nhada. Até juntar garrafas de refrigerantes e latinhas para vender no ferro velho valia a pena para conseguir o dinheiro para comprar o vale transporte e garantir um pouco de paz.

Neste dia, por um instante, como uma aparição, caminhando em direção ao pon- to de ônibus, uma imagem que jamais tinha visto e que jamais esquecerei surgiu quando a poeira baixou. Confesso que demorei um pouco para identificar que aquela visão tratava-se, aparentemente, de um rapaz.

Meu mundo parou pra eu olhar a “figura manifestada”.

A figura tinha os cabelos castanhos claros, bem compridos e ondulados na altura da cintura. As sobrancelhas eram bem finas e arqueadas. Nas suas orelhas furadas, brincos prata de argolas. Óculos de sol em formato de gatinho, estilo anos 60. Vestia- -se com uma camisa de botões, florida e aberta propositalmente até a altura do peito, exibindo assim, sua tatuagem de um coração vermelho com uma flecha atravessada. A bermuda jeans cortada e desfiada, era na medida de uns quatro palmos acima do joelho. Os pelos das pernas estavam descoloridos de loiro. Trazia uma tornozeleira

82

de palha com búzios, amarrada no tornozelo esquerdo, e calçava sandálias de couro. O sujeito tinha uma cara de “poucos amigos”. Observei atentamente a cada detalhe.

Quando se aproximou de mim, parou, desceu os óculos na altura do nariz com o dedo mindinho em riste e me mediu da cabeça aos pés. Gelei! Fingi que não estava ali. Ficamos assim por dois segundos, como presa e caçador, até que o ônibus chegou. Subi rapidamente e sentei no meu lugar de sempre. Quando ele estava alcançando a catraca, ouvimos um grito que vinha de fora: “PAGUUÚ, me esperaaaaa!”

Seu nome era Pagú! Que nome estranho é esse, pensei. Seu amigo era jovem, negro, afeminado na medida do imperceptível. Não era tão extravagante no modo de se vestir como Pagú, mas sua gargalhada e sua sobrancelha fina e arqueada, diziam muito. Talvez usar a sobrancelha naquele formato fosse a última moda, pensei. E eu, sempre soube ler as pessoas nos detalhes, assim como a sociedade me ensinou desde muito cedo.

A viagem parecia interminável. Sentados dois bancos a minha frente, sussurravam e riam o tempo todo. Como aquela felicidade me incomodava. Num certo momento olharam para trás, me olhando de cima abaixo, e caíram na gargalhada. Eu fingi que não entendi a piada, e continuei abraçando meus livros contra o peito, contando as horas no meu relógio preto do Mickey Mouse, com pulseira de couro, aprisionada em uma armadura que nunca pedi para vestir.

Assim que se aproximou meu ponto de descida, tomei coragem pra me levantar e passar por eles, até alcançar a porta de saída. Quando passei, riram mais um pouco.

Cheguei à escola, sentei no banco de madeira, próximo a entrada da cozinha (da merenda) e fiquei pensando na minha vida, na alegria daquelas pessoas, na liberdade que exalavam, e meus pensamentos transformaram-se em ondas de muitas interroga- ções.

Os dias seguiram por óbvio. Eu dormia e acordava pensando naquelas pessoas livres e felizes, que por acaso cruzei no ponto de ônibus a caminho da escola. No meu mundo não existia e nem cabiam pessoas “assim”: felizes. Eu era uma pessoa ado- lescente amargurada com tudo o que a vida tinha me oferecido até ali. Decidi então descobrir quem, onde e como viviam aquelas pessoas, e arquitetei um plano de fuga.

Comecei por raciocínio e eliminação das possibilidades. tinha ouvido falar sobre as praças onde as pessoas “estranhas” se reuniam a noite. Meus mais velhos referiram-se a esses lugares como “inferninhos”. Pensei: Começarei minha busca por lá. Algo me dizia que estava no caminho certo.

Nos dias seguintes, sondei toda a movimentação da preparação para dormir das pessoas da minha família, coisa que até então nunca tinha reparado. Fiz como assisti nos filmes uma roupa de sair debaixo da roupa de dormir e esquematizei onde fica- vam as chaves da porta dos fundos e quantas vezes levantavam para usar o banheiro. E foi esperar o momento considerado como certo. Não foi de primeira, lógico! Após algumas tentativas frustradas, enfim consegui sair. Quando sai, corri como se tivesse sido libertada de um cativeiro. Se eu fechar os olhos, ainda consigo sentir o medo, o suor gelado e o vento batendo no meu rosto. Segui para o centro, rumo ao “inferninho?. Após uns quarenta minutos de caminhada, cheguei à praça central. Dei- -me conta que não morava tão distante do “inferninho” e, de cara, um senhor negro de olhos esverdeados começou a me olhar. Disfarcei. Comecei a procurar aqueles per- sonagens que, dentro do meu mundo cheio de dúvidas, medos e preconceitos, iriam estar ali, com certeza. Enquanto eu olhava e registrava todas as movimentações, este senhor se aproximou e puxou conversa. Metida que só, descrevi as pessoas que eu fui procurar, na intenção que ele as conhecesse. Segundo ele, identificando Pagú como “o travesti”, disse que “eles” não apareceriam por ali naquele dia, mas sim estariam em uma boate que estava localizada umas quadras de distância da onde estávamos. Conferi o horário como uma Cinderela e decidi arriscar. Segui à risca as coordenadas e, alguns minutos depois, acabei chegando à frente de um sobrado. Olhei para cima e vi umas luzes brilhantes. Ouvi as músicas num volume altíssimo. Risadas ecoavam na calçada. Na minha frente, uma escadaria escura com um tapete de camurça verme- lho cobrindo os degraus, que davam acesso ao andar superior. Pensando novamente na metáfora do “inferninho”, foi quando pisei no primeiro degrau para entrar e uma voz me segurou dizendo: “Aonde você vai, bonitinha?”. Meu coração disparou nova- mente. Era miss “A”, a sentinela, como ela mesma se intitulava. Respondi que queria conhecer o lugar e ela perguntou minha idade. Menti, dizendo que tinha três anos a mais. Ela riu alto, me chamando de “bixinha quá-quá”. Caímos na gargalhada. A per- guntei o que significaria ser uma “quá-quá”, pois a vida havia me ensinado o que

83

84

era ser uma “bixinha”. Ela riu novamente e franzindo os lábios cor de rosa num bico, me disse: “Calma lá, fiaaa!”. Rimos novamente. Foi nesse instante que percebi que nossa sintonia foi imediata. Miss A era magra, alta e muito branca. Trazia os cabelos finos e pretos, num corte Chanel, digno de uma atriz francesa de Hollywood. Notava- -se que tinha uma cultura invejável. Falava baixo, pausadamente e, às vezes, de forma muito bem humorada. Misturava palavras da língua portuguesa com as palavras em francês e, quando questionada sobre seu endereço, dizia que morava “sob as estrelas”. Mesmo me proibindo de entrar por conta da minha idade, começou a me contar gra- tuitamente as histórias engraçadas que aconteciam por lá. De repente, as pessoas começaram a chegar. Os táxis brancos parando na porta, um atrás do outro, traziam pessoas de todas as cores, de todos os tipos físicos e de variadas classes sociais. To- dos conheciam Miss A e ela esbanjava simpatia e carisma em cada vez que preenchia a comanda de entrada. Fiquei num canto da portaria do “inferninho”, observando a movimentação, totalmente invisível. Nunca vi tantas pessoas lindas, sorrindo, felizes, cheirosas e bem vestidas.

Que mundo era esse que se revelava diante dos meus olhos?

A cada pausa no atendimento da recepção, Miss A conversava mais um pouco comigo, contando mais histórias. Eram muitas “fábulas gliteradas”. Eu queria viver ali dentro daquelas histórias. Não queria voltar nunca mais para a poeira dos meus dias. Numa pausa dessas, perguntei se ela conhecia Pagú. Neste momento ela colo- cou as mãos na cintura, bateu três palmas no ar, e se contorcendo toda no formato da letra S, disse sonoramente: “Queridinhaaaaa, Pagú é Du Babado Fortiíííssimo meu amoô6!”. Mais uma vez, rimos. Segundo Miss A, Pagú havia chegado recentemente na cidade. “chegou chegando”, causando muita encrenca. Bem nascida e de família fazendeira abastada, veio tentar a vida por aqui, após romper com a mãe conservado- ra. Assim que chegou, logo foi dividir uma casa pequena à beira do rio Sorocaba com um amigo (aquele que estava com ela no ônibus. Ele se chamava V.J). Miss A, neste momento, sussurrando próximo ao meu ouvido, disse que não foi fácil para ela, por- que Pagú era “pintosa demais” e, por isso, penou muito para conseguir um emprego como digitadora em uma empresa de Beep! (considerado moda e símbolo de status

1 Pager ou bipe, como o aparelho também era chamado no Brasil, foi o meio de comunicação mó-

86

por algumas pessoas nos anos 80 e 90). Ostentar um desse na cintura, não era coisa pra qualquer mortal.

Nesta época, quando os gays se encontravam, usavam a expressão “ser entendi- do/a” para certificar-se de que pertenciam a mesma sigla vigente: GLS (gays, lésbicas e simpatizantes). Não tinham entendimento e nem falavam sobre as identidades trans. A única visibilidade trans que existia era na marginalidade. As travestis em situação de prostituição eram proibidas de entrarem na boate, a menos que se sujeitassem a pagar uma taxa tripla do valor estipulado para os/as GLS e jurar que não arrumariam briga com ninguém (mesmo se fossem provocadas); ou então, se entrassem vestidas como homens gays.

A cada dia, pensar sobre Pagú me aguçava a curiosidade. Ouvi outras histórias sobre como ela afrontava e enfrentava o mundo, ou como quebrava as regras impostas dentro da sua realidade de exclusão.

Nas minhas idas cada vez mais frequentes à portaria do “inferninho”, e das longas conversas com Miss A e os seus amigos, que por tabela logo tornaram-se meus amigos também, rapidamente fui entendendo, através dos relatos, que as pessoas não eram tão felizes nem tão livres como imaginei, e que as fábulas não tinham tanto glit- ter assim. Era um momento de medo, silêncio e muita dor.

Chegou o dia em que conheci o amigo do amigo do amigo do amor platônico de Pagú. Viramos confidentes logo de cara. Devido ao acaso e como personagem central de uma crise de ciúmes infundado (digno de uma novela das oito), acabei numa noite dessas, sentada numa calçada como ouvinte de toda a lamúria daquela pessoa forte que idealizei. Pagú de pronto não me reconheceu. Até pela minha pouca experiência, me fiz de ouvinte atenta e atenciosa. Quando o sangue foi esfriando, começamos nos olhar e refresquei sua memória dizendo quem eu era. Ela respondeu: “Ah, você é a bixinha quá-quá de uniforme!”. Rindo alto do acaso, respondi que sim. Conversamos sobre a vida até o dia raiar. Depois, passamos na padaria e nos dirigimos à casa dela. Chegando ao portão, ela me convidou para entrar e tomar um café.

vel que precedeu os celulares. O dispositivo, ainda usado por profissionais como médicos, consiste em um pequeno receptor de rádio, associado a um código ou número de telefone pessoal. Disponível em: https://www.techtudo.com.br/noticias/2018/12/pager-fez-sucesso-nos-anos-1990-re-

lembre-o-antecessor-do-sms-e-whatsapp.ghtml/ Acesso em 10, Fev.2022.

Para o meu espanto, os dois cômodos da casa, à beira do Rio, pareciam oito. Como Pagú mesmo explicou, ali era a casa das/os artistas, da Sorocaba que ninguém queria. E assim, continuaram as histórias enquanto passava o café. Logo que ficou pronto, fui servida de uma xícara e um lanche com pão, presunto e mussarela. “Caçei um canto pra me jogar”, obedecendo de pronto à ordem dela, e ouvi atenta a cada relato, na medida em que as pessoas foram se levantando e se encaminhando para o trabalho. Algumas dessas pessoas levavam uma vida diurna “camuflada”, exercendo funções até então, não permitidas para “GLS assumidos”. Muitos mantinham rela- cionamentos forjados, casamentos por conveniência com pessoas acima de qualquer suspeita. Alguns sustentavam os filhos em idade escolar com o dinheiro arrecadado nas apresentações como transformistas nas boates, ou nas esquinas, “montados como travestis”. Tinha muita dor em cada coração que falava.

Nesta época, as noites GLS eram marcadas pelas apresentações artísticas de trans- formistas (em geral, eram homens gays que se “transformavam?”, por meio de ma- quiagens, perucas e acessórios femininos, em lindas mulheres, para se apresentarem em shows de dublagens). É dentro dessa realidade que se formaram os Clãs. Sorocaba tinha dois desses quando Pagú chegou. Eram liderados pelas transformistas mais ta- lentosas da cidade. Elas possuíam o controle de quem se apresentava ou não, e as suas apresentações eram marcadas pelas produções mais caras e glamorosas do momento. Toda a produção era “importada” de São Paulo. Era impossível fazer parte, diziam as excluídas por essas transformistas que lideravam os clãs. Frente a isso, Pagú encon- trou um sobrenome italiano poderosíssimo e fundou o seu próprio Clã, formado pelas “artistas que ninguém queria”. Como era lindo ver tanta coragem!

O tempo passou, nossa amizade cresceu e eu não fui exceção: acabei sendo con- vidada a morar “sob as estrelas”. Sem ter o poder de escolha, aceitei. Entre as voltas que o mundo dá, acabei indo morar na “Casa de Pagu”.

Minha transição de gênero veio logo. A de Pagú, alguns anos depois. Seguíamos amigas, irmãs, confidentes, unidas em muitos projetos artísticos e até mesmo dividin- do camarins em apresentações como transformistas.

Dividimos por muitos anos o mesmo ponto na esquina. Em noites difíceis, uma cuidava da outra. Em situações de brigas e violências, nos defendíamos com unhas e

87

dentes. Mesmo tendo modos diferentes de ver o mundo, moramos anos juntas, divi- dindo a mesma casa, na beira do rio. Formávamos uma dupla infalível. Assim que me apropriei de mim, fui morar sozinha.

O destino nos colocou algumas vezes em lados opostos na militância por direitos de pessoas trans. Em muitas vezes nos enfrentamos, cada uma segurando sua bandei- ra de luta, defendendo arduamente as nossas convicções e nossas idéias revolucioná- rias em prol de uma sociedade mais igual para as travestis. Mesmo em lados opostos, sempre nos respeitamos muito!

A nossa amizade perdurou por anos e anos. Cada vez que nos encontrávamos, era uma festa de lembranças boas, de relatos de amores (amados ou frustrados), e sempre muitas risadas.

Foi idéia dela a minha primeira festa surpresa de aniversário, com direito a uma van de tele-mensagem gritando meu nome no portão. Foi idéia dela minha primeira viagem de ônibus à praia. Bordou os canutilhos da minha primeira fantasia de carna- val. E foi com ela que aprendi o sentindo da responsabilidade de defender e acolher nossas iguais como se fossem nossas irmãs. Tínhamos essa vontade de sermos espe- ciais uma pra outra. E fomos, durante muitos anos.

Pagú, que depois da transição se chamou Vitória, foi engolida pela rejeição fami- liar, que nunca entendeu. O desprezo da mãe e o silencio do pai frente à sua transição e ao seu modo de viver, diferente do que haviam idealizado, foi o fogo consumidor da sua coragem. Um fogo que a consumiu pouco a pouco. A falta de um amor pra cha- mar de seu contribuiu para bombardear sua auto-estima, tão fragilizada. Sua inte- ligência excepcional e sua vontade de viver e de lutar pelo que acreditava ser o justo foram um passaporte frustrado para uma ilha de completo isolamento. A fuga pelo uso e abuso de substâncias psicoativas, somada à prepotência de acreditar que estava no controle de tudo, reduziram aquela figura imponente a apenas uma sacolinha de roupas, um kit de viagem, frustrações e sonhos não realizados. Tudo isso pulverizado de cidade em cidade do interior.

Lembro-me da ultima vez que nos falamos via aplicativo de mensagens, algumas semanas antes de ser surpreendida com a noticia da sua partida, em uma cidade vizinha, do interior de São Paulo.

A história relatada acima, com alguns nomes trocados, traz um pedaçinho da his- tória de vida, da resistência, da amizade, da luta e da sobrevivência, que é parte do cotidiano de muitas de nós, mulheres trans/travestis. Assim como Pagú, VJ, Miss A, e tantas outras pessoas brilhantes que conheci nesta trajetória enquanto trans e profis- sional do sexo. Pessoas que com tristeza, presenciei acabarem sozinhas, sugadas por esse breu do aprisionamento social, penalizadas injustamente por transformarem-se nas pessoas que a sociedade não queria que elas fossem. A dor e a delicia dessa audá- cia são um preço altíssimo a se pagar!

Essa sociedade hipócrita e violenta em que somos inseridas, criadas e obrigadas a sobreviver (de qualquer forma) desde muito cedo é a única culpada por tanta dor, tanto preconceito, e tanta invisibilidade de pessoas incríveis, assim como Pagú foi pra nossa geração.

A nossa amizade e a força que movia Pagú para lutar contra a injustiça, contra o preconceito, contra a desigualdade e contra esse sistema opressor, segue viva em mim, e desejo que se multiplique cada vez mais e mais.

Visibilidade trans é ter direito garantido a uma família acolhedora, à educação, à saúde humanizada, além do acesso às oportunidades de ter, e de construir uma vida, vivida com dignidade e cidadania.

E eu jamais esquecerei o “Dia em que conheci Pagú”. Pagú, Presente!!

Thara Wells Corrêa Mulher Trans, Transfeminista, Transati- vista, Militante pelos Direitos Humanos Graduada em Serviço Social, Mestranda pelo PPGECH (Programa de Pós- Gradua- ção em Estudos da Condição Humana) UFSCAR; Presidenta da Associação de Transgênero de Sorocaba- AT'S; Conselheira do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Sorocaba.

89

90

Val Dbrochnow

uma coisa íntima plantada entre duas mulheres à beira da mesa do café que mira a rua

a primeira toma o ar entre, recolhe ombros eu permiti a um filho não nascer

a outra cerra olhos mãos nas mãos daquela que chora: o mesmo espanto.

é ainda bem cedo

mal alimento o filho nascido, ela diz

e percorrem o horizonte cego à frente bem à frente

nítido. nasce o silêncio preciso.

Val Dbrochnow

ninguém podia trançar as roscas dormidas na janela, ela

naquele tempo,

mulheres postas de lado,

feito pequenas coisas carcomidas por cupins mulheres não prestam para todas as coisas como votos festas cachimbos,

O Sexo

a avó separa os grãos todas as noites enquanto dorme o filho em uma caixa de maçãs que ela não comeu

separar a madrugada

a aflição do silêncio perdulário separar O cansaço para depois o corpo violado

separar as vestes

a boa mãe na gaveta ao lado separar o desejo para depois

o corpo inerte, cansado

noites gestam e acordam bichos.

91

92

Val Prochnow, poeta e jornalista belo-horizontina, é editora de poesia da Revista Chama, autora do livro Inventário de Mulheres Possíveis e mãe do Gael. Os poemas acima integra o livro Depois a noite, a ser lançado ainda este ano.

94

ATO POE PREÇO

Yvonne Miller

entre meus lábios e os seus nossas línguas

percorrem

provocam

pulsam

sem rimas

verso livre

a poesia sua e minha se arrepia

em palavra viva

Yvonne Miller é natural de Berlim, mas mora no Nordeste do Brasil desde 2017. Tem crônicas e contos publicados em coletâneas e anto- logias, como Paginário (Aliás, 2019), A Banalidade do Mal (Mirada, 2020), Histórias de uma quarentena (Holodeck, 2021) e Crônicas de 4 uma Fortaleza obscena (Territórios, 2021), assim como na revista li- terária feminista Laudelinas, entre outras. É uma das organizadoras da coletânea de contos Quando a maré encher (Selo Mirada, 2022). Participa do coletivo de cronistas nordestinas (Dteardehistorias e tem colunas no blog do selo Mirada e do Escritor Brasileiro. Escreve também literatura infantil. Atualmente mora no interior de Pernam- buco, junto com sua esposa, enteada, gato e cachorro. Instagram: (& yvonnemiller escritora

95

96

PARGOTZERO

Félia Sales

Ele estava nu, nuzinho da silva, na minha frente. A pele queimada de sol, a marca clara da sunga. Me veio à memória uma conversa durante a aula de religião, havia muito tempo, a Malu cochichando em meu ouvido, “Tu viu homem nu?? Certa- mente a Irmã Consuelo estava falando sobre honra, pecado, danação, celibato. Agora sim, eu estava vendo um homem pelado, inteirinho, na minha frente. Fiquei sem jeito, puxando e soltando a alça do sutiã, ouvindo o estalo do elástico contra meu ombro. Foi minha primeira vez.

Era um motel à margem da BR 116. O prédio em fim de obra, ainda não estava aberto para o público. Ele inventou um monte de meias mentiras, e o responsável dis- se que ele poderia encostar o caminhão. Pra mim não havia separação entre aquele dia e o seguinte, eu não tinha conseguido dormir, o rádio à noite inteira tocando Ângela Ro Ro, Marina Silva, anunciando pacotes de viagens, cervejas, cigarros... Uma certa hora, exausto da viagem, da noite de amor, ele caiu num sono profundo, e eu fiquei acordada na semiescuridão, a imagem da minha mãe atravessando na minha frente o tempo todo, “Quando a cabeça não pensa, o corpo padece”.

“Minha mulher também não sangrou na primeira vez”, comentou na manhã se- guinte enquanto passava manteiga no pão. Eu sabia que era amor de alguns dias, não estava exigindo nada. Mas de vez em quando ele me dava uma alfinetada, fingida des- pretensão. Talvez quisesse dizer não se iluda comigo, não tenho nada pra lhe oferecer, ou, masoquista, procurasse nos meus olhos uma ponta de sofrimento. Por dentro eu ria baixinho. Ele tinha quase trinta, conhecia alguma coisa do mundo, eu era como uma espiga despontando por baixo da palha. Mas eu ria baixinho por baixo da palha verde.

Fazia comentários banais, me testava, “Minha mulher tem sardas no rosto, eu particularmente acho um charme”. Minha cara não movia um músculo, os olhos de placidez. Eu me lembrava de uma rapariga da minha cidade, começou a se prostituir ainda menina. Era comprida, caneluda, atrevida, o cabelo crespo bem curto, o rosto

coberto de sardas. Era conhecida como Capota. Capota. Que vontade de rir.

Fazia questão de falar de intimidades da casa. Tinham uma máquina de lavar, tinham uma empregada, reproduzia diálogos domésticos, Dona Mônica pra lá, Dona Mônica pra cá, havia crianças, duas meninas. Ele falando sozinho, eu protegida por uma redoma invisível, mal ouvia. Não era bem uma redoma, era uma carcaça. Mas ele não percebia. Sua atenção estava no asfalto à nossa frente, nos postos de fiscali- zação, nos guardas que se encostavam na porta, pediam os documentos, a nota fiscal, fuçavam alguma irregularidade, queriam levar o deles. Entre os papéis, ele colocava as cédulas previamente dobradas, ocultas sobre o quebra-sol.

Uma semana depois, a piaba tinha papado o tubarão: ele estava decidido a me le- var pro Rio de Janeiro com ele, disse que alugaria uma kitnet pra mim. “Você precisa ver a ponte Rio-Niterói...” Que hilário. Será que ele nunca tinha visto o conjunto pai- sagístico de Cabo Frio, não conhecia Paraty? Pelo que parecia, morava na Baixada. Eu vivia em uma cidadezinha perdida no sertão, mas o Rio não me atraía, embora a diretora da escola sempre me advertisse, você tem cabecinha de menina de Copaca- bana. São João do Meriti... pois bem...

Aquele cara tinha minha boca, minha pele jovem, macia, cheirosa, minha boceta, mas estava longe de alcançar minha alma. Ele era um tesão nos seus 27 anos, o corpo e os olhos de mel, às vezes usava um gorro vermelho e branco, “Desfilei usando isso no carnaval do ano passado, pelo Salgueiro”. Botava uns óculos Ray ban, acendia um cigarro, metia o no acelerador, cantando um sambinha que se confundia com o ba- rulho do motor, vez por outra esticava o olhar manso sobre a paisagem, vez por outra me olhava, me passava o cigarro, sorria. Eu também estava feliz. Eu me amarrava no seu sotaque chiado, mas ele dizia camisinha de vento. Poxa, eu lia Neruda! De vento! Eu rindo por dentro e por fora.

Chegamos em Recife em pleno carnaval. Ele acertou com o frentista de um posto o caminhão ficou em segurança e me levou pra um baile nas quebradas. Outro caminhoneiro se encostou na nossa mesa, trazia uma putinha que falava comigo como se fôssemos colegas, mas eu nada entendia, um barulho infernal. Quando ela ria tinha o cuidado de fazer pressão nas bochechas pra não revelar a ausência do pré-molar. De madrugada, voltamos pro posto e dormimos na boleia do caminhão.

No dia seguinte, retirei da minha mochila meus documentos e o que eu tinha de valor e coloquei numa pochete. Sugeri que devíamos ir pro Recife Antigo. O frevo! O frevo! A gente se olha, se beija, se molha... eu gargalhava. Não se perca de mim,

97

98

não se esqueça de mim, não desapareça... No Marco Zero me soltei da mão dele e me perdi na multidão.

Zélia Sales é cearense de Itapajé e vive em Fortaleza. Graduada em Letras (UECE) e especialista em Investigação Literária (UFC). É pro- fessora e desenvolve projetos para formação de leitores. Tem traba- lhos em diversas antologias, entre elas as do Prêmio Ideal Clube de Literatura e Prêmio Sesc de Contos. Publicou dois livros no gênero conto: A cadeira de barbeiro (2015) e O desespero do sangue (2018). Em 2019 participou da antologia Relicário, do projeto Letras&Livros, organizado pelo jornal O Povo; e em 2021 escreveu para o Álbum Fortaleza Ilustrada, da Fundação Demócrito Rocha. Publica regular- mente no blog Leituras da Bel, do jornal O Povo. Pertence à Associa- ção Cearense de Escritores ACE.

01)06 14

100

PARTICIPARAM DESTA ENIÇÃO

Ilustrações

Ana Amorim Fontana, nascida e criada em São Paulo, uso a arte como 3 forma de ressignificar tudo o que sinto de mais pesado e sombrio, e me identifico bastante com o trecho do poema “Motivo”, de Cecilia Mei- reles,” não sou triste, nem alegre, sou poeta”

Coordenação Editorial

Taciana oliveira é cineasta, formada em comunicação social: rádio e TV, defensora das causas sociais por vocação, coordena as revistas Lau- delinas e Mirada e é editora de Selo do mesmo nome. Natural do Recife, é leão com ascendente em leão e lua em virgem. anos protela o lança- mento de seu primeiro livro, Coisa Perdida, mas um dia ele sai.

Design Editorial

Rebeca Gadelha é Otaku, Gamer, Artista Digital e Geógrafa sem senso , de direção. Tem um fraco por criaturinhas peludas e chá gelado. Participa A > da Plataforma Mirada como Designer Gráfico e curadora. Atualmente B'/. - trabalhacom edição de vídeo do projeto Literatura & LIBRAS (instagram (Dliteraturalibras), escreve no Medium sob o pseudônimo de Jaded. É autora de Reminiscências (Selo Mirada, 2020), livro de memórias. IG: (O | ohmybecka

MIRADA